Category: Ditadura Militar

Vai te queixar prá quem?

Em abril de 1984 perdemos por alguns votos a chance de eleger no ano seguinte um presidente. Quem tinha nascido antes ou depois de 1950 esteve nas ruas. Participei da primeira grande passeata pela Diretas, no Rio, em 16 de fevereiro daquele ano, com mais 59.999 pessoas, pelos números assumidos e publicados à época. Tinha passado no vestibular e começava a faculdade de comunicação. A ida ao Rio foi presente do meu irmão, que morava lá.

De volta à Porto Alegre, fui no primeiro dia de aula com minha linda camiseta azul com letras pretas e amarelas “Brasil urgente, Diretas pra presidente” . Os 119 colegas olharam, alguns simpatizaram, outros me trataram como um vidro. Fui a todas as passeatas, fiz cartazes e faixas e acompanhei, ao vivo, pelo telão no largo da Epatur com milhares de pessoas – e potencializadas lágrimas – a derrota.

Nesse ano eu morava no Ceupa, Centro Evangélico Universitário de Porto Alegre, uma casa de estudantes que havia sido fundada por alguma igreja evangélica, mas que, a essas alturas, de evangélica só conservava o nome. São 3 casas. Uma na Sarmento Leite, onde eu morava, outra na José do Patrocínio e outra na Luis Afonso. Sistema de auto-gestão, pagávamos quase nada e tínhamos muitíssimas obrigações com manutenção, convivência, ordem, formação e discussão de grandes temas. Éramos 89 estudantes, dos 18 aos 30 ou mais anos. Todos universitários. Dali saíram pessoas que em algum momento dirigiram (dirigem) partidos, sindicatos, centrais sindicais, empresas estatais, secretarias. Muitos avanços sociais que celebramos hoje têm parte de seu DNA nesses endereços.

Numa noite de agosto de 1984, voltava para a Sarmento depois de uma reunião na casa dois, a da José do Patrocínio. Tinha saído de um trabalho em grupo para a faculdade e ido direto para lá. Num braço a pasta, na mão livre um cigarro, a bolsa, um embornal de couro chileno que foi presente desse meu irmão, atravessada da esquerda para a direita. Vejo um fusca da polícia passando e escuto porta de carro batendo na rua deserta e silenciosa da terça-feira fria às onze da noite. Em seguida uma voz me manda levantar os braços e abrir as pernas, era uma “revista” . Falo que eles não poderiam me revistar, que chamassem uma policial feminina. Me olham com desprezo e me perguntam “vai te queixar prá quem?” Com a coragem que os 19 anos te dão, falo “se encostarem um dedo, grito” . Estava em frente a um desses prédios, acho que de uns 8 andares, com comércio no térreo e moradia em cima.

Desistiram da revista ao corpo, mas não aos pertences. Procuravam drogas. Abri a bolsa, joguei tudo no chão, o mesmo com a pasta. Olharam tudo aquilo, roubaram o isqueiro, a caixa de fósforos e o pacote de cigarros, entraram no carro e se foram.

Fiquei ali chorando de raiva, juntando tudo meio molhado, pois tinha chovido mais cedo, e fui prá casa. Os que ainda estavam acordados quando cheguei, choraram comigo. No dia seguinte outros diziam, “tu deu sorte, esses ratos – assim eram chamados os policiais civis que eram os mesmos que prendiam e arrebentavam poucos, bem poucos anos antes – poderiam ter te levado e ninguém mais ia saber de ti”.

Não sei como é passar por violência física, mas acho que a dor da impotência diante da força bruta deve ser mais ou menos como a que senti essa noite, quando nem maioridade plena tinha. É a que sinto hoje.

E lembro do “rato” dizendo, “vai te queixar pra quem?”

O PSDB cada vez mais à direita

O PSDB nasceu com uma proposta de centro-esquerda louvável, necessária ao espectro político da época. Possuía um quadro de fundadores com uma significante parcela de pessoas que de uma forma ou outra sofreram com as consequências da ditadura militar.

Alguns foram deportados por suas posturas críticas (não concordo com a militância mais radical que afirma que eles fugiram), portanto, seria de esperar algum tipo de coerência com o repúdio a qualquer tipo de censura ou perseguição política, por mais intensa que esteja a luta pelo poder.

Ao alcançar o poder em 1995, o partido trocou a social democracia pelo liberalismo econômico se tornando indiferente em relação às condições de vida das pessoas mais miseráveis, no entanto, os tucanos permaneciam com o mesmo discurso de que seriam um tipo de esquerda moderada e inteligente.

Talvez por não aceitar a perda do poder, o partido foi enveredando lenta e gradualmente para um tipo de direita ultra conservadora, renegando tudo que pregavam em um passado não tão distante. Pode-se dizer que o partido foi empurrado nessa direção devido às circunstâncias do jogo político e a polarização com o PT, no entanto, parece que o partido e seus simpatizantes perderam o controle e, se aproximaram de qualquer antítese de esquerda. No início PT e PSDB ocupavam não o mesmo espaço no espectro ideológico, mas áreas próximas.

Ao resolver se aproximar daquelas pessoas que odeiam o PT e qualquer esquerda, o partido foi se deixando influenciar e absorvendo o que existe de pior na sociedade, e por mais que se culpe Serra, e eu também culpo, os demais integrantes do partido não são completos imbecis para serem “hipnotizados” pelo Serra, ou seja, o PSDB teve todas as chances de falar pro Serra algo como: “Espera aí,  Você está destruindo a nossa história, não queremos ser assim”, mas os que não apoiaram preferiram ficar no silencio acumpliciado.

Se a gente analisar as ações de tucanos nos últimos tempos, seja dentro ou fora da administração pública, vamos perceber que não difere muito da antiga ARENA. Do uso da força policial para reprimir manifestações democráticas ou desocupar prédios públicos ou particulares, o partido tentou ( e muitas vezes conseguiu) censurar a imprensa e constranger jornalistas, ameaçou institutos de pesquisa, procuradores do MP e ministros do judiciário e se uniu a banda podre da imprensa para criar factóides para desestabilizar governos legitimamente eleitos, produziu dossiês contra adversários ( e até correligionários).

Os fatos que ocorreram nos últimos dias se revelaram uma síntese do que se transformaram os tucanos: Provocaram a demissão de jornalista e editor da revista que publicou uma resenha favorável ao livro “A Privataria Tucana”, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., através de pressão feita pelo seu presidente e, provavelmente estão envolvidos no sumiço dos exemplares da última edição da revista Carta Capital, que revelava o poder do contraventor Carlinhos Cachoeira no estado de Goiás, nomeando funcionários e definindo sua remuneração além da citação direta do Governador Tucano, Marconi Perillo em diálogos do bicheiro, e embora ainda não se possa provar a sua responsabilidade no desaparecimento da revista, ele seria o maior interessado.

O mais curioso é que a própria imprensa que deveria repudiar a atitude de desprezo pela liberdade de expressão dos tucanos vive acusando o PT de ser contra a liberdade de imprensa, mas, de tudo isso o que mais me chamou a atenção aconteceu no último fim de semana, com a manifestação nas redes sociais de algumas pessoas favoráveis ao golpe militar de 1964, era possível perceber que a maioria era simpatizante ou militante do PSDB, a máscara vai caindo aos poucos e as pessoas começam a perceber quem é quem.

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Plantando a semente do reacionarismo

Embora as pessoas que me acompanham no twitter e Blog do Luis Nassif já conheçam a minha opinião sobre os eventos recentes ocorridos na Universidade de São Paulo, resolvi esperar os fatos se desenrolarem para, enfim, escrever sobre o assunto, sem precipitações. Em primeiro lugar quero declarar que acho que foi um erro a decisão dos setenta e poucos alunos de invadir a reitoria, mesmo sendo derrotados em assembléia. O direito de manifestação é legítimo, mas o respeito pelo desejo expresso pela maioria deve ser princípio para quem se dispõe à luta política, mesmo que defendam reivindicações justas.

Seria redundante voltar a afirmar que o Reitor Rodas se aproxima do fascismo ao tomar decisões autoritárias sem ouvir os representantes de estudantes, professores e funcionários. Da mesma forma, repetitivo seria lembrar o despreparo da PM para lidar com estudantes e o seu ignóbil entendimento da mensagem dada pelos legisladores para a mudança da lei de entorpecentes: Usuário não é bandido, e que a invasão da universidade pela tropa de choque da PM foi a decisão mais imbecil que o reitor e o governador poderiam ter tomado.  Isso tudo já foi bem dissecado em excelentes artigos de colegas blogueiros e jornalistas independentes.

O argumento de que a maioria dos estudantes estaria contra as decisões do movimento estudantil é uma falácia daqueles que são incapazes de criar maiorias. Estes são uma meia dúzia de reaças que se intitulam porta-vozes daqueles que não se mobilizam. A maioria não se mobiliza porque vivemos em uma sociedade alienada, que encantada pela baboseira do que vê e lê na mídia, vota em branco e nulo nas eleições. Se existe uma maioria contra, que compareçam às assembléias e façam valer seus interesses, ou se não suportam conviver com “diferenciado” elejam representantes para os DAs e DCE, criem um movimento dissidente, decidam em assembléias válidas, e aí então reivindiquem a representação dos estudantes se conseguirem reunir mais alunos, porque é assim que está baseada a nossa democracia, no sistema de representatividade, e os que são ativos politicamente decidem por aqueles que se omitem.

O que está me preocupando bastante é a forma como os reacionários estão saindo dos porões na esteira da cobertura jornalística neolacerdista, e se valendo do uso de adjetivação pejorativa usada por analistas políticos ávidos para agradar aos patrões, sentem-se a vontade para expor os mais sórdidos desejos autoritários. A baixaria estimulada e permitida na área de comentários dos grandes portais se equivale no caso da USP e da cobertura da enfermidade do Lula. Uma lixeira sem tampa que rebaixa o homem na escala de evolução.

As palavras “desordeiro” e “maconheiro” são repetidas à exaustão em uma técnica de desqualificação que deixaria Goebbels envaidecido. A sensação que dá é que voltamos aos anos 70 e o que durante algumas décadas era considerado vergonhoso de se defender, hoje é motivo de orgulho. Uma pesquisa recente mostra que a parte da população que preza os valores democráticos passou a menos de 50%, e mesmo que se possa questionar a validade científica desses dados, o resultado mostra que devemos começar a nos preocupar.

Quanto mais nos afastamos do período da Ditadura, mais gerações que não conheceram os horrores causados por esta, atingem faixa etária em que se iniciam na atividade política, e com a popularização da internet, a tendência que sejam cada vez mais precoces e totalmente sujeitos a manipulação de opinião pelas cobras criadas. O duro mesmo é ver determinadas pessoas que se dizem de esquerda apoiando repressão violenta contra estudantes, em que parte do caminho nos desvirtuamos? mas a Comissão da Verdade é uma oportunidade única de refrescar a memória dos mais velhos e ensinar aos mais jovens, que se hoje têm o direito de espinafrar o governo, isso foi conquistado às duras penas por aqueles que lutaram contra a repressão.

O perigo maior é a médio e longo prazo, quando as sementes que eles estão plantando agora derem seus frutos estragados. Está muito claro para mim, que com esse bombardeio de reacionarismo estão cultivando uma sociedade ainda mais conservadora e reacionária que a que temos hoje. Os movimentos sociais e militância que não abram os olhos ou veremos em breve um filme de roteiro repetido.

Imagem ilustrativa: Charge de BIER.

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A herança maldita de José Serra

José Serra perdeu as eleições presidenciais em 2010, mas os métodos utilizados em campanha, bem como algumas das suas ações enquanto governador de São Paulo, deixaram sequelas irreparáveis que a cada dia ficam mais evidentes.

A marcha da maconha que é realizada todo ano em várias cidades do país e do mundo, se tornou ontem em São Paulo em um espetáculo deprimente para a nossa frágil e jovem democracia. Só a sua proibição, utilizando o argumento de que seus participantes fariam apologia ao uso da droga, já foi um ato arbitrário cometido por um juiz reacionário sem noção que remete aos argumentos toscos utilizados pela ditadura militar para praticar repressão contra cidadãos brasileiros.

A polícia de São Paulo agiu com violência para reprimir os manifestantes, que proibidos de colocar em curso a Marcha que aconteceu em outras cidades, fizeram um protesto pela liberdade de expressão. Cassetetes, balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo foram usados contra manifestantes desarmados que tentavam fazer um protesto pacífico.

A violência da polícia de São Paulo é herança nefasta da administração de José Serra naquele estado, e agora continuada pela gestão Alckmin, do mesmo partido. Enquanto Serra era governador, determinou que a mesma polícia invadisse a USP para retirar a força funcionários e professores em greve, que protestavam dentro das instalações da universidade. A mesma polícia teve a autorização do governador para reprimir violentamente qualquer manifestação contra o governo do estado, e culminou com um confronto agressivo entre policiais civis em greve e tropa de choque da PM de São Paulo.

A intolerância às manifestações pacíficas e violência da polícia não são as únicas sequelas deixadas por uma administração equivocada e uma campanha de baixarias. As crescentes manifestações homofóbicas e racistas, em especial no prestígio dado por parcela da mídia ao deputado Bolsonaro e pastores evengélicos, o crescimento da violência contra minorias e bullying, o aparecimento de padres fundamentalistas e agressivos, a defesa aberta da tortura na ditadura militar, saudosistas da censura, manifestações xenofóbicas em redes sociais e o aumento da intolerância ao contraditório são exemplos do que há de pior na sociedade, e que foi ressuscitado pelas ações de José Serra, disposto que estava a ganhar as eleições de 2010 a todo custo.

Hoje o país colhe o que Serra semeou e que foi irresponsavelmente adubado e regado pela velha imprensa, que também não mede esforços para eleger seus eleitos. O vale tudo eleitoral e a administração do maior estado do país baseado no enfrentamento e falta de diálogo, aliado a uma imprensa chapa branca, disposta a qualquer coisa para vencer as eleições atiçaram setores da sociedade (os piores) que normalmente não mostravam a cara e viviam às sombras. Serra e seus sócios da máfia midiática remexeram o excremento que estava no fundo e o trouxe à tona.

Todo esse retrocesso vai levar muito tempo para ser revertido e vai precisar muito esforço da maioria da população que não tolera as ações dos reacionários. Infelizmente ainda vai passar algum tempo em que vamos ter que conviver e nos envergonhar da herança maldita do Serra.

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Uma comissão da verdade para a velha mídia

O vídeo divulgado no site Conversa Afiada do jornalista Paulo Henrique Amorim (Veja aqui), é mais uma prova incontestável de como determinado segmento da imprensa deu sustentação ao golpe e ditadura militar, tornando-se cúmplice dos crimes cometidos pelo estado no período mais negro da história desse país.

Não me lembro de ter visto a exibição da propaganda adesista sem vergonha construída em cima de mentiras em uma tentativa patética de reescrever a história, na ocasião em que foi exibida pela Rede Globo. O ano era de 1975, e esse blogueiro só tinha sete anos de idade à época, só comecei a tomar consciência do que o país tinha vivido e ainda vivia três anos mais tarde.

Já conhecia a capa de O Globo um dia após o golpe e o famigerado editorial assinado por Roberto Marinho comemorando em 1984, os vinte anos do golpe e ditadura que perseguiu, exilou, prendeu, torturou, matou e desapareceu com milhares de Brasileiros, inclusive jornalistas, mas esse vídeo narrado por Cid Moreira torna inquestionável qualquer tentativa de justificar a posição editorial do grupo durante o período militar. Não dá para comparar censura com apoio voluntário.

Veículos da velha mídia, sobretudo Globo e Folha, que ainda hoje tentam reescrever a história com releituras indecentes do que aconteceu naquele tempo, tem suas parcelas de culpa nos crimes cometidos pelo estado seja por participação direta (como nos episódios em que carros de entrega de jornais da Folha foram usados para transportar presos políticas para as masmorras da OBAN) ou através do uso do seu poder de penetração nacional, garantido pelos próprios militares, para catequizar cidadãos e criar a ilusão que o estado criminoso promovia a sua salvação.

Entendo e respeito os companheiros que exigem punição para os criminosos assassinos e torturadores, talvez por não ter perdas familiares pelos crimes da ditadura, eu apoio a comissão da verdade como um instrumento de se revelar os fatos reais para os brasileiros que até hoje são enganados pela propaganda mentirosa, resgatar a dignidade de quem morreu e foi torturado (e seus familiares) pelo sonho de construir um país livre de ditadores e evitar que as próximas gerações esqueçam o que aconteceu e caiam nas mesmas armadilhas. Mesmo que ninguém seja punido, pelo menos que a verdade seja contada, isso é fundamental.

Nessa linha, sem nenhum tipo de revanchismo, é preciso mostrar para o país não só o que fizeram os militares, mas também os serviços prestados pelos seus aliados para sustentar o regime. Roberto Marinho e Octávio Frias têm suas parcelas de responsabilidade nos crimes cometidos pelos milicos, e não se pode perder a oportunidade para acabar com a ilusão criada dos grandes comunicadores que devem ser homenageados. Aos golpistas, o limbo da história.

Fonte da imagem: http://wn.com/AMERICANOS_TRAMAM_APOIO_AO_GOLPE_DE_64

 

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