No ano passado houve uma grande convergência de interesses que possibilitou a união de blogueiros e internautas com vistas às eleições para o executivo e legislativo. O motivo para a reunião de pessoas de diversas correntes ideológicas era o desejo de evitar uma vitória da direita e dos grandes veículos de comunicação.
Passadas às eleições, as divergências entre diversos grupos começou a aparecer, o que é absolutamente normal levando em consideração a heterogeneidade do coletivo. A partir do momento que as discussões foram entrando em assuntos específicos, as diversas correntes de pensamento tendem a defender os seus próprios valores.
Essas diferenças de opinião não impedem que se fortaleçam os laços de união e colaboração mútua entre os diversos atores envolvidos, e iniciativas como os BlogProgs, o Teia Livre e a Rede Liberdade são exemplos de que existem mais pontos que nos aproximam do que aqueles que nos colocam em lados opostos, além de estimular os debates.
Para que essas sementes gerem uma colheita satisfatória de contribuição para democratização da comunicação é preciso extirpar as ervas daninhas antes que se espalhem e contaminem a plantação. Eu falo de certa intolerância à opinião divergente, que determinados assuntos despertam. O respeito e tolerância à discordância de opinião deveria ser um preceito fundamental dessa revolução no conceito de comunicação.
É absolutamente normal que assuntos considerados polêmicos como Creative Commons, Ana de Hollanda, energia nuclear, construção de barragens, medidas macro econômicas e muitos outros, gerem defesas apaixonadas em que a lógica é deixada um pouco de lado, isso não é um defeito, no entanto é preocupante se as discussões descambam para o lado da intolerância de sequer podermos aturar quando discordam de nossas opiniões.
Em algumas áreas a divergência é considerada uma benção. Como exemplo, eu cito a ciência, onde não haveria evolução se os pupilos não resolvessem discordar de seus mestres. Por outro lado, a intolerância à opinião vem servindo de justificativa para a ocorrência de perseguições políticas e golpes de estado em todo o mundo, por gerações. Essa incapacidade de conviver com o contraditório é uma das características mais marcantes daqueles que constantemente criticamos, tanto na direita quanto na imprensa que lhes dá suporte.
A quem interessa os conflitos gerados por essa intolerância que vão desde birrinhas a desqualificações pessoais entre blogueiros, comentaristas e twitteiros, que para defender seus pontos de vistas abandonam o bom senso atirando contra aquele que até bem pouco tempo caminhava ao seu lado? Eu respondo: interessa aos nossos verdadeiros adversários, aqueles que não desejam um movimento coeso de pessoas que procurem revolucionar o modo de fazer comunicação nesse país.
Entendo que o momento para corrigir distorções é agora, quando essas iniciativas ainda engatinham e não está bem claro para todos os conceitos de ética que devemos seguir. É inútil confrontar opiniões com os donos da verdade absoluta, os melhores debates são travados com aqueles que estão dispostos e discutir e não impor seus pontos de vista a todo custo, mas não é inteligente nem querer ouvir argumentos discordantes sob risco de cair no maniqueísmo.
É preciso exercitar diariamente a capacidade de tolerar opiniões divergentes, mesmo aquelas que consideramos sem pé nem cabeça. Discordar sim, desqualificar jamais, mas mesmo quando houver extrapolação por não estar em seus melhores dias, lembre-se que é digno voltar atrás, reconhecer que errou e até pedir desculpas. Acredito que só assim chegamos a algum lugar.
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