Obama chegou hoje ao Brasil e foi ao Palácio do Planalto onde tinha compromissos agendados. Resolvi assistir pelo canal de TV a cabo Globonews, que não vinha acompanhando há algum tempo, por acreditar que a transmissão me daria munição para escrever um texto crítico. Dito e feito, e apesar de me aborrecer um pouco, tenho que agradecer a emissora porque o arremedo de jornalismo que pratica me forneceu a pauta que precisava.
O discurso de Dilma cala os críticos
Em seu discurso oficial, a presidenta Dilma conseguiu ao mesmo tempo fustigar o presidente norte-americano Obama citando o protecionismo que prejudica países em desenvolvimento, desconsertar os críticos do fogo amigo que insinuavam entreguismo e desmentir a velha mídia que insiste em afirmar que a diplomacia brasileira vai sofrer mudanças em relação aos rumos traçados pela dupla Lula/Amorim.
Dilma deu sinal claro que vai lutar pelos interesses brasileiros como vem acontecendo nos últimos oito anos e que não vai retroceder em relação à posição de destaque conquistada pela diplomacia brasileira ao reafirmar as intenções de concretizar uma reforma no Conselho de Segurança da ONU e ocupar uma vaga de assento permanente no mesmo, mas como disse ela, não pelo cargo burocrático, mas para construção de um mundo mais multilateral que trará paz e harmonia para todos os povos.
Mirando o fogo amigo, Dilma falou: “Eu sucedo um homem do povo com quem tive a honra de trabalhar. Meu compromisso essencial é com a construção de sociedade de renda média garantindo um ambiente institucional que favoreça o investimento produtivo”. E para a imprensa que vem insistindo em posicionamento diferente do Brasil, se alinhando mais aos EUA, não se furtou de criticar a política protecionista americana: “Buscamos relações econômicas mais justas e equilibradas. É fundamental que se derrubem barreiras a produtos como o etanol, a carne bovina, o suco de laranja, o aço.”.
Ontem, o Brasil já tinha golpeado essa tese de alinhamento quando o país se absteve na votação no Conselho de Segurança da ONU, da resolução proposta pelos americanos de intervenção militar na Líbia, mostrando que não apóia o regime Kadafi nem vai dar respaldo para propostas belicistas para resolver conflitos internos de países soberanos, em uma demonstração de continuidade na política diplomática brasileira. Dilma pela Dilma, sem intermediários e especulações para vender jornal.
Obama foge das respostas esperadas
Apesar do tom elogioso ao Brasil e a presidenta Dilma, O presidente americano foi protocolar e evitou compromissos claros para as demandas brasileiras mais importantes em relação a aquele país. Não tocou no assunto das barreiras contra produtos brasileiros e foi genérico ao afirmar que trabalhará conjuntamente com o Brasil para reformar o Conselho de Segurança sem declarar apoio à candidatura brasileira. Obama esteve reunido a portas fechadas com Dilma e o conteúdo do que foi negociado não foi informado até o fechamento desse artigo, mas se formos nos basear pelo teor do seu discurso, dificilmente conseguiremos progressos nessas áreas.
O contorcionismo da Globonews
Como era esperado, a Globonews, que faz parte da Central Globo de Jornalismo, demonstrou toda a subserviência que já conhecemos em relação as autoridade americanas, e que transforma o ato de assistir as coberturas que faz desse tipo de evento em um sacrifício para qualquer brasileiro que tenha um pouco de amor próprio. Além de nos envergonhar com essa postura, a emissora de TV a cabo tentou a todo custo aproveitar a cobertura para alfinetar posicionamentos da diplomacia brasileira, tanto no governo Dilma quanto no de Lula.
Só que parece que a emissora não deu sorte na escolha dos especialistas em política internacional convidados para comentar o evento e responder perguntas afoitas dos âncoras, que tentavam referendar as críticas infundadas repisadas nos noticiários da velha mídia.
O primeiro convidado foi o professor de relações internacionais Williams Gonçalves que literalmente deu um baile nos apresentadores da cobertura especial da emissora. A cada tentativa de conseguir arrancar uma declaração que pudesse constranger a diplomacia brasileira ou o ex-presidente Lula, o entrevistado demolia uma tese da emissora. Tentaram sem sucesso substituir o âncora, e o professor continuou a rebater um a um os argumentos falaciosos. Creio que esse não será mais convidado para falar sobre o tema na emissora, pois cometeu, segundo os critérios daquela redação, o “crime” de independência de posicionamento.
Cansados de dar murro em ponta de faca, resolveram trocar o entrevistado para o professor de História Edgar Leite, mas esse também teimou em não validar a desonestidade intelectual dos entrevistadores. Foi aí que eu pensei, agora vão chamar o Celso Lafer, que tinha sido chanceler do governo FHC, para tentar salvar a transmissão do naufrágio. Dito e feito, não demorou muito e Lafer apareceu para opinar sobre as mesmas perguntas que tinham sido dissecadas pelos outros convidados, pensaram: agora vamos ouvir a resposta que queremos, mas visivelmente constrangido com a presença do professor Edgar Leite, o ex-chanceler seguiu as opiniões dadas até aquele momento, se limitando a uma crítica genérica em relação ao período Lula/Amorim.
Como disse o amigo @ivantrindade no twitter, se eles queriam ser respaldados seria melhor terem convidado o José Serra, que mesmo não sendo especialista em relações internacionais, não tem vergonha de falar besteira em público. Ficou nítida a intenção de pegar carona para reforçar a sua interpretação distorcida dos fatos, e em toda a transmissão foram críticas contra a posição do Brasil em relação ao Irã e na votação no conselho de segurança, além da tentativa de arranhar a imagem de Lula por não ter aceitado o convite para almoçar com Obama e até, pasmem, por não falar inglês.
Hoje foi um dia especial onde Dilma de forma incontestável reafirmou a sua intenção de dar continuidade no projeto de Brasil com orgulho próprio iniciado por Lula. Em contrapartida, foi mais um dia vergonhoso na história da imprensa brasileira.
Foto da imagem Ilustrativa Reuters Brasil – autor não informado.