Category: Alexandre Garcia

O vexame dos brasileiros que defenderam o golpe em Honduras

Se tivéssemos uma imprensa séria e profissional de verdade no país, determinados “comentaristas políticos” já teriam sido despachados e as empresas que eles trabalham veiculariam desculpas públicas pelas asneiras que disseram ou escreveram. Como não são e ainda duvidam da inteligência de quem os lê, vê e ouve, fica tudo por isso mesmo e quem falou ou escreveu a sandice continua ocupando espaço, ignorando solenemente a necessidade de se explicar ao distinto público.

Poderia citar aqui vários jornalistas e comentaristas que usaram os mesmíssimos argumentos, e isso mostra como a maioria reza pela mesma cartilha, mas dentre todos os entoadores de mantra ninguém defendeu o golpe em Honduras com mais paixão e afinco do que Alexandre Garcia e Arnaldo Jabor.

Quando em 2009 os milicos tomaram o poder em Honduras, expulsando o presidente eleito legitimamente a opinião pública internacional condenou de imediato. O comportamento da imprensa nacional foi esquizofrênico, fazendo eco a princípio com a reação internacional, mas logo em seguida mudando lentamente de posição, até defender abertamente a “legalidade” de um vergonhoso golpe de estado.

Assim que o Brasil assumiu posição de protagonista ao enfrentar os golpistas e dar abrigo ao presidente legítimo na sua embaixada em Tegucigalpa, esse pessoal que ficou responsável por defender a legitimidade do golpe frente à opinião pública brasileira começou a repetir os argumentos fajutos dados pelos golpistas para tentar justificar o atentado contra a democracia daquele país.

Afirmaram enfaticamente que o golpe era legítimo porque Zelaya tentara mudar a constituição. Na verdade, o que Zelaya tentou fazer foi um plebiscito onde a população decidiria se o presidente poderia ser reeeleito ou não. Muito mais democrático do que tentar o mesmo através de emenda constitucional, sem respaldo popular como fez FHC em 1997. A desculpa oficial para justificar o golpe era uma cláusula pétrea na constituição que impedia a reeleição do presidente, portanto passaram a defender que não existiu golpe nenhum, e da mesma forma que vivem tentando reescrever a nossa história, determinaram que o que houve em Honduras em 2009 e no Brasil em 1964 foram “contra-golpes”.

Nem o fato do governo golpista ter fechado TV, rádios e jornais à força, além de ter reprimido com violência manifestações populares mexeu com os brios de quem trabalha com imprensa ou estimulou condenações contra a restrição às liberdades de imprensa. Até a população que protestava contra o golpe e tomou as ruas de Tegucigalpa, chegando a fazer um cerco de proteção à embaixada do Brasil foi classificada como “partidários de Zelaya” e não “dissidentes” como eles costumam classificar opositores de regimes que eles consideram ditaduras.

A humilhação já tinha vindo com uma das revelações do Wikileaks onde o embaixador americano em Honduras classificou o golpe como golpe, simples assim. Logo os EUA, por quem essas pessoas dedicam toda a sua reverência, vem a público ridicularizar suas teorias de “golpe branco”. Naquela ocasião já deveriam ter pedido o boné, como se diz no popular, mas o castigo tinha de ser maior.

Pois bem, nessa semana o governo atual de Honduras, eleito em pleito não reconhecido pela maioria dos países, inclusive o Brasil, e o congresso daquele país aprovaram, em uma ação pouco noticiada pela imprensa brasileira, uma modificação na constiuição que permitirá a reeleição do presidente. Exatamente o que Zelaya tentou fazer e virou desculpa para o golpe de estado.

Alexandre Garcia e Arnaldo Jabor não vão se explicar, vão continuar com espaço para falar o que o diretor de jornalismo da Rede Globo e os diretores da emissora gostariam de dizer, mas não tem coragem, no entanto, a cada dia mais gente vai entendendo o papel a que essas se prestam.

 

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Os deformadores de opinião

Há algo de muito grave sendo progressivamente estimulado pelas redações e muito pior do que o velho partidarismo que a cada dia fica mais indisfarçável nos veículos de imprensa.

Eu falo da freqüência com que são emitidas opiniões pelos ditos formadores de opinião da velha mídia defendendo o sectarismo e a intolerância e carregadas de preconceito e racismo.

Além da reação a qualquer transformação no país que leve a uma diminuição das desigualdades sociais ou de correção de distorções históricas, tornaram-se freqüentes editoriais em TV, jornais e rádios criminalizando movimentos sociais, estudantis e pela reforma agrária e pregando a discriminação de minorias.

Isso sem falar no flagrante revisionismo histórico para dar sustentação à decisão equivocada do STF de perdoar os crimes de tortura e assassinato praticados pelo estado durante a ditadura militar.

A declaração em “off” do Boris Casoy humilhando o “cidadão de segunda classe” lixeiro foi diferente da opinião do Alexandre Garcia sobre o direito de um soropositivo ter descendentes?

O Arnaldo Jabor defendeu o fim da velha esquerda e eles ainda têm a cara de pau de se reunir para falar de liberdade de imprensa e democracia.

Os setores mais conservadores e intolerantes da sociedade estão finalmente “colocando as manguinhas de fora” e se expressando com desenvoltura. Parece que depois do fim da ditadura permaneceram hibernando por duas décadas esperando que o pudor de defender a intransigência e discriminação se diluísse.

Não há mais sequer o cuidado de se desculpar quando confrontados com a reação dos ofendidos pelos seus excessos, se consideram hoje imune às críticas, afinal o que pode ser mais fácil do que acusar seus críticos de querer calar a imprensa. É desonesto, mas funciona.

Confesso que me assusta essa escalada na defesa de pontos de vistas que incentivam a intolerância e o preconceito. É preocupante quando a velha mídia começa a dar a mão com tanto vigor aos setores mais reacionários da sociedade, principalmente quando se sente perdendo espaço no poder.

O pior é que não se acham no dever nem de dar explicações à sociedade. A liberdade de expressão é usada como argumento pra tudo, mesmo quando o defendido for algo indefensável que vai de encontro, por exemplo, a declaração universal de direitos humanos.

Os deformadores de opinião não acham que lixeiros tenham o direito desejar felicidades aos seres superiores da elite nacional, ou que possa existir diversidade de opiniões, ou que os pobres, soropositivo ou não, possam procriar. Pra que? Que horror! Como diz o Paulo Henrique Amorim.

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