Enquanto esperamos o livro do jornalista Amaury Ribeiro Junior, os porões da privataria, que vai ser lançado no ano que vem e vai desvendar as sujeiras nos bastidores dos processos de privatização de empresas públicas, resolvi lançar uma série de textos avaliando os resultados práticos das privatizações, sob a perspectiva do que interessa à população e não apenas aos investidores.
Começamos a nossa série falando da Vale, que enquanto estatal era Vale do Rio doce, atualmente considerada uma das maiores mineradoras do mundo. A Vale, que dava lucro ao governo federal, foi leiloada por um valor irrisório levando em consideração os seus ativos na época, e foi paga com dinheiro emprestado pelo BNDES, que deveria fomentar o desenvolvimento e não financiar a venda de patromônio público por preço vil. Ainda hoje tramitam na justiça dezenas de ações populares que pedem a nulidade do processo de privatização da empresa, pelas irregularidades observadas no seu decorrer.
A “recuperação” da Vale logo após passar para a iniciativa privada mostrou que o único problema da empresa era de gestão. O motivo principal que levou a empresa a não ser tão eficiente o quanto poderia é o sucateamento por sucessivos governos, que se intensificou no período tucano. O governo FHC boicotou a estatal para depois poder entoar a cantilhena que a empresa era um elefante branco e que seria melhor administrada pela iniciativa privada, o que depois se revelaria um argumento correto, mas em função da incapacidade tucana de administrar e não pela “impossibilidade” do estado de gerir empresas.
Com os aumentos sucessivos nos preços internacionais do minérios de ferro em 2004 e 2006, a Vale hoje contribuiria bem mais para o país e para a economia se estivesse sendo gerenciada pelo estado, primeiro porque os lucros não seriam todos direcionados para os investidores, boa parte dele iria para o tesouro, desafogando as contas públicas e segundo porque a empresa estaria criando muito mais empregos aqui no Brasil em vez da…China.
O controle acionário e administrativo do tesouro nacional sobre a Petrobrás garante estratégias de envolvimento que prestigiam a indústria nacional, como vimos recentemente na aquisição por parte da petrobras de plataformas e navios petroleiros em estaleiros nacionais, movimentando a economia nacional e gerando mais empregos no nosso país, já a Vale, operada pela iniciativa privada costuma comprar seus barcos na China.
No ano passado, Roger Agnelli, Presidente da Vale indicado pela Valepar que detém o comando acionário da empresa, anunciou a compra de navios na China, o que foi criticado duramente pelo presidente Lula (Leia aqui). Agora, A Vale anuncia que a china emprestará dinheiro à empresa para nova compra de 10 navios que serão fabricados pelo estaleiro chinês Rongsheng (leia aqui), o que mostra uma tendência na empresa de fazer uma parceria sólida com os chineses, dando uma banana para os críticos brasileiros que apontam essa postura da direção da empresa de desprestigiar a industria nacional, ignorando o que representa para o país.
Além da desvalorização sofrida pela indústria naval com a política de parcerias econômicas com estaleiros chineses, os críticos ressaltam a estratégia da empresa de manter o Brasil como fornecedor de commodities (matérias-primas), pois a empresa não investe no beneficiamento das commodities no território nacional, o que mantém baixo o valor agregado dos produtos. Essa estratégia dá razão aos que criticam o país por dar prioridade em exportar matérias primas em detrimento da indústria nacional.
Podemos concluir que administração eficiente não depende se o gestor é público ou privado, afinal existem exemplos de administrações inficientes e eficientes tanto na iniciativa privada quanto no estado. Mesmo sendo uma empresa de economia mista, o governo mantém o controle acionário e administrativo da Petrobras, que é uma empresa de sucesso internacionalmente reconhecido e em contrapartida temos vários exemplos de empresas que não deram certo mesmo sendo administradas pela inciativa privada.
Controle estatal, dependendo da governo vigente, tende a ter mais responsabilidade social na hora de escolher seus parceiros comerciais e ser mais favorável para a indústria nacional, e em consequência disso, para toda a população. Empresas estatais correm o risco de se tornar um cabide de empregos, mas um controle público eficiente pode resolver esse problema, já a ausência do estado em determinadas áreas pode gerar prejuízos insanáveis. Um país que se preocupa com o nível de desenvolvimento e nível de emprego não pode prescindir ou abdicar da participação, e de ter certo controle, em setores estratégicos para o país.
Por Paulo Nolasco:
Sou ex-empregado da Cia. Vale do Rio Doce, sai sob pressão de um superior imediato, num programa de demissão “voluntária”, já na preparação para a privatização, o que me demitiu, foi demitido um ano depois, por incompetência.
Posso dizer que praticamente, nasci dentro da CVRD e a conheço bem, os que privatizaram a CVRD, não conheceram o papel social daquela empresa onde ela se estabelecia, acho que vale um estudo, não mencionarei dinheiro, apenas uma frase de um Geólogo:
A Serra de Carajás, hoje sob o domínio da Vale, é uma tabela Periódica, referindo-se ao minerais que podem ali serem encontrados.