Por DiAfonso*
Pernambuco.com ou JC Online: em quem acreditar?
Consideremos singelamente que, diante de um fato com grande possibilidade de vir a se tornar notícia, [1] cabe ao profissional do jornalismo indagar: o quê, quem, quando, onde, como e por quê. Pelo menos, esse seria o roteiro primário do profissional de determinado veículo de comunicação que deseje cumprir o papel de levar, de modo fidedigno, informações a seus leitores.
Esse roteiro seria, então, uma espécie de “esqueleto” a partir do qual se redigiria a notícia. Esse roteiro é a “checagem” da realidade factual a fim de que a ocorrência não seja falseada e não haja prejuízo informacional para o leitor.
Ao que parece, essas “noções básicas” não foram levadas em conta pelo jornalismo do Pernambuco.com e de seu concorrente, o JC Online. Ambos os veículos de comunicação noticiaram a lamentável tragédia de um cidadão que, ao cair de um coletivo, veio a falecer hora depois.
Aplicando aquele singelo roteiro, teremos alguns “senões” de deixar o leitor sem saber o que de fato ocorreu, sem saber o que é dia e o que é noite. Vejamos:
No Pernambuco.com [Diário de Pernambuco]
Morreu esta manhã no Hospital da Restauração um passageiro que caiu de um coletivo na Avenida Cruz Cabugá na sexta-feira. Yvan Pereira das Neves, de 41 anos. A vítima viajava no ônibus da empresa Itamaracá que fazia a linha Recife-Igarassu. Após o acidente, Yvan foi levado ao Hospital da Restauração, onde faleceu.
O acidente ocorreu por volta das 18h30 da sexta-feira, nas imediações da Escola de Aprendizes de Marinheiros. A vítima, que era fotógrafo, morava na Rua Maria Cecília, em Cruz de Rebouças. O caso foi registrado na delegacia de Paulista.
A reportagem do Pernambuco.com entrou em contato com a empresa envolvida no acidente. Representantes da direção informaram que não houve nenhum registro de ocorrência relatado pelos motoristas sobre o caso.
Com informações da repórter Adaíra Sene [aqui]
No JC Online [Jornal do Commercio]
Um homem morreu, no fim da tarde desse sábado (5), após ter caído de um ônibus em movimento, no Centro Histórico de Igarassu.
Vídeo [inserido na matéria depois de uma última edição]
De acordo com informações iniciais, Ivan Pereira das Neves, de 41 anos, estava em um coletivo da empresa Itamaracá quando ocorreu o acidente. Não há detalhes sobre como o incidente teria ocorrido.
O corpo de Ivan Pereira das Neves deu entrada no Instituto de Medicina Legal (IML) por volta das 18h40. Como causa da morte, o laudo aponta traumatismo crânio-encefálico.[aqui]
No Pernambuco.com, o acidente teria ocorrido na “Avenida Cruz Cabugá” ["nas imediações da Escola de Aprendizes de Marinheiros"]. Ora, quem reside em Recife ou em alguma das regiões metropolitanas da capital pernambucana sabe muito bem que, embora os pontos sejam próximos, a citada “Avenida” fica no Recife e a EAMPE está localizada em Olinda. Alguém poderá dizer que são detalhes: alguns quilômetros não prejudicariam a informação. Haveria prejuízo, sim. Sobretudo para os familiares que desejam saber onde ocorreu o trágico fato.
No JC Online, o acidente teria sido no “Centro Histórico de Igarassu”. Entretanto – pasmem [!] – no vídeo inserido posteriormente na matéria e com reportagem do TV Jornal [do próprio JC!], o repórter afirma que “[...] nesse trecho da Avenida Olinda, Ivan Pereira das Neves, 41 anos, caiu do coletivo [...]“. Como assim?! A distância entre os pontos indicados [no portal JC e na reportagem do TV Jornal] é de aproximadamente 24 km!
Resta saber quem está noticiando o fato de maneira a apresentar a informação precisa. O Pernambuco.com ou o JC Online?
Esse episódio constrange e preocupa, porquanto nos põe à mercê de um jornalismo pouco sério [feito "nas coxas", como se diz] e desinformativo, sem a busca efetiva do que realmente aconteceu.
Assim são os fatos divulgados nos quais inocentes são envolvidos sem a mínima chance de defesa. Assim procedem alguns jornalistas que não se esmeram em verificar os fatos como eles ocorreram. Lamentável…
Meus profundos pêsames a essa família que virou notícia de forma tão desrespeitosa e pouco profissional.
Com a palavra o jornalismo do Pernambuco.com e do JC Online.
[1] Isso em consonância com a linha editorial adotada por determinado veículo de comunicação. É sabido que a triagem do que é e do que não é notícia passa por esse crivo editorial.
Cumpadi, tomara que essa família não consuma essas porcarias e nem fiquem sabendo do amadorismo com que a sua tragédia familiar foi tratada. Infelizmente os bons jornalistas acabam saindo desses veículos por não se submeterem a praticar esse jornalismo de quinta para satisfazer a vontade e interesse no lucro dos donos. Não conheço Recife nem Olinda, infelizmente, mas imagino que essas localidades devem ficar em áreas menos ricas, ou estou enganado? geralmente o raciocínio é que a periferia é uma coisa só. Abraços.
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