José Serra perdeu as eleições presidenciais em 2010, mas os métodos utilizados em campanha, bem como algumas das suas ações enquanto governador de São Paulo, deixaram sequelas irreparáveis que a cada dia ficam mais evidentes.
A marcha da maconha que é realizada todo ano em várias cidades do país e do mundo, se tornou ontem em São Paulo em um espetáculo deprimente para a nossa frágil e jovem democracia. Só a sua proibição, utilizando o argumento de que seus participantes fariam apologia ao uso da droga, já foi um ato arbitrário cometido por um juiz reacionário sem noção que remete aos argumentos toscos utilizados pela ditadura militar para praticar repressão contra cidadãos brasileiros.
A polícia de São Paulo agiu com violência para reprimir os manifestantes, que proibidos de colocar em curso a Marcha que aconteceu em outras cidades, fizeram um protesto pela liberdade de expressão. Cassetetes, balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo foram usados contra manifestantes desarmados que tentavam fazer um protesto pacífico.
A violência da polícia de São Paulo é herança nefasta da administração de José Serra naquele estado, e agora continuada pela gestão Alckmin, do mesmo partido. Enquanto Serra era governador, determinou que a mesma polícia invadisse a USP para retirar a força funcionários e professores em greve, que protestavam dentro das instalações da universidade. A mesma polícia teve a autorização do governador para reprimir violentamente qualquer manifestação contra o governo do estado, e culminou com um confronto agressivo entre policiais civis em greve e tropa de choque da PM de São Paulo.
A intolerância às manifestações pacíficas e violência da polícia não são as únicas sequelas deixadas por uma administração equivocada e uma campanha de baixarias. As crescentes manifestações homofóbicas e racistas, em especial no prestígio dado por parcela da mídia ao deputado Bolsonaro e pastores evengélicos, o crescimento da violência contra minorias e bullying, o aparecimento de padres fundamentalistas e agressivos, a defesa aberta da tortura na ditadura militar, saudosistas da censura, manifestações xenofóbicas em redes sociais e o aumento da intolerância ao contraditório são exemplos do que há de pior na sociedade, e que foi ressuscitado pelas ações de José Serra, disposto que estava a ganhar as eleições de 2010 a todo custo.
Hoje o país colhe o que Serra semeou e que foi irresponsavelmente adubado e regado pela velha imprensa, que também não mede esforços para eleger seus eleitos. O vale tudo eleitoral e a administração do maior estado do país baseado no enfrentamento e falta de diálogo, aliado a uma imprensa chapa branca, disposta a qualquer coisa para vencer as eleições atiçaram setores da sociedade (os piores) que normalmente não mostravam a cara e viviam às sombras. Serra e seus sócios da máfia midiática remexeram o excremento que estava no fundo e o trouxe à tona.
Todo esse retrocesso vai levar muito tempo para ser revertido e vai precisar muito esforço da maioria da população que não tolera as ações dos reacionários. Infelizmente ainda vai passar algum tempo em que vamos ter que conviver e nos envergonhar da herança maldita do Serra.