O Procurador Geral da República, Roberto Gurgel, apresentou ontem, as suas explicações por escrito aos questionamentos feitos por parlamentares da CPMI do Cachoeira. As perguntas diziam respeito à acusação feita por dois delegados da Polícia Federal que atuaram na operação Vegas, que afirmaram que a Procuradoria Geral da República não cumpriu com suas obrigações funcionais ao receber o inquérito da citada operação sem oferecer denúncia ao STF, nem ter pedido novas diligências ou arquivado a denúncia, congelando as investigações em andamento, inclusive sobre as pessoas sem foro privilegiado. Os delegados afirmaram ainda que essa operação já possuía elementos suficientes para pegar a mesma quadrilha que agora está sendo descoberta pela Operação Monte Carlo.
Ao saber que foi citado, e das movimentações para convidá-lo à CPI, Gurgel fez articulações políticas, chegando a visitar parlamentares para não ser chamado. Como não deu certo pela enorme repercussão do depoimento do delegado, Ele, e a subprocuradora Cláudia Sampaio, procuraram a imprensa alegando perseguição pelos réus do “mensalão”, com explicações frágeis e fazendo ameaças veladas a parlamentares. Uma das explicações dadas pela subprocuradora, de que o pedido para suspender o inquérito teria partido de delegado da Polícia Federal, foi formalmente desmentida pela direção da PF.
Recheadas de contradições e incoerências, as explicações dadas por Gurgel podem ser consideradas um deboche aos congressistas e, principalmente a população brasileira, que gostaria de ouvir explicações convincentes daquele que deveria ser o seu maior defensor, e contra quem agora pesam acusações de cometer crime de responsabilidade, ao impedir que a Polícia Federal desmontasse e prendesse uma quadrilha com ramificações nos três poderes.
Ao defender a tese de sobrestamento para que as investigações pudessem prosseguir, o Procurador Geral da República insiste em uma tese inconsistente que já foi desmentida pela Polícia Federal, e por juristas que comentaram a sua situação.
Se a sua intenção fosse que a operação tivesse prosseguimento com o sobrestamento, O PGR deveria ter pedido mais diligências para que fossem aprofundadas as investigações. Só que ele apenas sentou em cima da denúncia e esperou que caísse no esquecimento. A operação não teve continuidade, os delegados afirmaram que a ação da Procuradora provocou o seu congelamento desde então.
Alegou que se não tivesse agido daquela forma, os fatos hoje revelados sobre a quadrilha pela Operação Monte Carlo não seriam investigados. A afirmação não se sustenta porque o PGR nada tem a ver com as investigações da Operação Monte Carlo, solicitadas por procuradores regionais de Goiás, mais de um ano depois do engavetamento da Operação Vegas. A única consequência real da atitude de Gurgel foi dar sobrevida a uma organização criminosa e mais um mandato para parlamentares envolvidos.
As explicações do PGR conseguiram contradizer até a sua esposa, Cláudia Sampaio ao afirmar que cuidou pessoalmente do caso, sem delegar a denúncia aos cuidados de nenhum subprocurador, desmentindo declarações dadas à imprensa recentemente pela subprocuradora. Mesmo ajustando as versões elas continuaram conflitantes, e o PGR deixou clara a tentativa de tentar evitar que Cláudia fosse convocada para se explicar à CPMI.
Como de hábito, já apareceram algumas “análises”, nos principais meios de comunicação, decretando que as explicações do PGR foram suficientes para sepultar as suspeitas contra os dois, inclusive encontrando eco em membros da CPMI, como o já manjado “mosqueteiro da ética” senador Álvaro “pancake” Dias (PSDB-PR) e o representante da “neo-esquerda”, senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP).
Como já é célebre a covardia crônica da maioria dos parlamentares, é bem possível que eles consigam se safar do desgaste de enfrentar uma CPMI, mesmo que isso signifique mais um baque em uma CPMI que não consegue cumprir seu papel por não resistir a pressão declarada dos principais meios de comunicação. Afoitos pelo sepultamento da mesma, a velha mídia sabe que em uma investigação séria e independente de um congresso fortalecido e em condições de representar o povo e os estados, fatalmente sentariam com o PGR e a quadrilha Cachoeira no banco dos réus. Gurgel pode até ser poupado, mas como um pato manco, vai se arrastar enfraquecido e com a sombra de suspeitas não esclarecidas até o final do seu mandato.
Se os grampos do “nextel anti-grampo” começaram a partir da “sentada” do Gurgel, então tá tudo explicado: o PGR é um ajudante da quadrilha.
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