O Rio arde com automóveis pegando fogo nas capas de jornais e noticiários de TV, a polícia responde e, no meio dessa confusão (que alguns consideram exageros, outros nem tanto), surgem os formadores do discurso popular.
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O mais assustador em meio à loucura que tomou o Rio, além das cenas da fuga de integrantes do tráfico da Vila Cruzeiro pe;a TV, é o discurso dos apresentadores do “jornalismo popular” como Datena, Wagner Montes e Gustavo Marques (da Record RJ).
Pelo discurso destes, não vivemos mais em um estado democrático de direito, não existe a constituição de 88 e os policiais não são agentes da lei, mas foras-da-lei fardados. O discurso “bandido bom é bandido morto” ressuscitou com esses apresentadores, que posam como paladinos da sociedade, mas fazem um desserviço ao empregar um discurso fascista e que ignora acordos internacionais do qual o Brasil é signatário.
Será que estes senhores sabem que, se o Brasil for condenado na corte internacional por desrespeito aos direitos humanos, pode sofrer sérias sanções de outros países e entidades internacionais?
Será que estes senhores não notam que o Estado, ao executar um “bandido”, está ignorando a constituição, a presunção de inocência e o estado democrático de direito que garante que todos tenham direito de defesa e sejam considerados inocentes até serem julgados?
Quando alardeiam que a “poliçada” têm que matar esses marginais, ligados ao tráfico, acabam colocando no mesmo saco quem não respeita a lei e quem deveria zelar para que ela seja aplicada.
É um atentado contra a mesma democracia que estes se dizem defensores…
Não é de se surpreender quando vemos uma enxurrada desse discurso raivoso invadindo a internet. No facebook, quando não são choramingos pela “Cidade Maravilhosa”, são frases como “A polícia deveria jogar uma bomba no Alemão, logo” ou “Quando eles estavam fugindo, deveriam ter pego um helicóptero e fuzilado geral”.
Detalhe: antigamente estas frases se restringiam à “Zelite”… hoje vemos moradores do subúrbio e da baixada, que nem de longe beiram a “Zelite”, dizendo o mesmo.
Os “jornalistas populares”, e não é de hoje (vide Alborghetti), parecem se travestir como povão para pregar os ideais da elite reacionária tupiniquim.
Esta semana o nobre humanista, e deputado, Bolsonaro pai escreveu no jornal O Dia, do Rio de Janeiro, que é hora de adotar a “Tolerância Zero”. Talvez ele tenha em mente a idéia “Atirar primeiro e perguntar depois”, muito bem aplicada em países como EUA e Inglaterra.
Jean Charles foi um bom exemplo da eficiência desta política.
A vida no Rio não está normal, mas também não está um caos insustentável. As medidas quanto a políticas de segurança estão sendo tomadas, diferente do governo de SP que se omitiu quando sob ataques do PCC em 2006, embora a raiz do banditismo, como diria Chico Science, é uma questão de classe. E deve ser tratada como tal.
A fábrica de marginais não são as mulheres dos morros que tem filhos, mas o Estado que sucateia os serviços como educação e saúde públicas. A segurança pública deve ter uma visão social de inclusão também. A longo prazo, medidas hoje tomadas se mostrarão sem efeito.
Usando uma metáfora, agora, preferida dos queridos apresentadores: Matam-se as formigas, mas o ninho continua gerando soldados.
Não sejamos inocentes em achar que essas políticas acabam com o tráfico, ele está na Suécia, na França, no Canadá… e não é por culpa dos Bolivianos ou Mexicanos. Aí o buraco é muito mais embaixo. Mas quando o Estado dá oportunidade e inclui aqueles que antes estavam à margem da sociedade, essa tendência de jovens se alistando no exército do tráfico diminui.
Mas aprofundar esta questão não interessa aos programas de TV, gerar debates na sociedade e o pensamento crítico é perigoso e desinteressante.
Caos, desordem, insegurança e indignação dão pontos no Ibope; Ponderação nas análises para reflexão do telespectadores, não! Que o diga Noam Chomsky
A violência assusta as ruas do Rio e a intolerância domina a TV brasileira. Haja antiácido nos próximos dias…